Emoção

Existe uma emoção que, da perspectiva do comunismo superior, nos impede de irmos longe demais no conhecimento técnico, sem nos preocuparmos em querer esmiuçar excessivamente alguma coisa que nos desvia da grande tarefa de obrar (deixemos esse fardo para os operários distraídos pela erudição que acumularam). Referimo-nos à emoção generosa que nasce do conhecimento da igualdade na continuidade, que nos desloca para lugares onde é impossível encontrar, em nós mesmos, algum sujeito fixo, isolado, com o olhar sedento por premiações que nada mais fazem do que reforçar uma aparente descontinuidade. Afinal, quando foi que a vida precisou ser autorizada a se expressar? Quando foi que a vida precisou ser legitimada a seguir pelos caminhos que foram traçados por ela? A conclusão é evidente: a vida não precisa de prêmio, nunca precisou, jamais irá precisar... O ritmar que expressa a emoção generosa provoca a respiração em um tempo que é constantemente ignorado pelas exigências de reconhecimento do macromundo, pois é lá, no macromundo, onde nos habituamos com um tempo que não é o da vida – e é por isso que a escassez desse ritmar é um grave problema social de higiene. Reafirmamos: é impossível que haja revolução social que ignore as relações profundamente afetivas. Por esse motivo é que pensamos na importância política de ações – incluindo as apropriações tecnológicas – que podem desfazer as divisões hierárquicas representativas, o confinamento utilitário dos corpos e as relações artificiais que reforçam a perigosa opinião de que não temos nada a ver com os problemas do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso planeta. As divisões imaginárias que fazemos, além de serem úteis para distinguirmos raças, nacionalidades, sexos, etapas da nossa própria existência (infância, juventude, vida adulta, velhice), podem também ser consideradas como ornamentos da natureza. Entretanto, quando essas divisões imaginárias são objetos de crença para quem está capturado pela vaidade, simplesmente parecem não pertencer mais ao devir do mundo e se tornam abomináveis hierarquias representativas: chega-se ao ponto de os brancos imaginarem que são superiores aos negros e aos índios; os norte-americanos imaginarem que são superiores aos latino-americanos; os europeus imaginarem que são superiores aos africanos; os ricos imaginarem que são superiores aos pobres – em síntese, chega-se ao absurdo de os seres humanos imaginarem que são superiores aos demais viventes do planeta, como se um Deus tivesse criado o mundo para eles... Sendo assim, para combater o fascismo – inclusive o da demagogia democrática – é indispensável considerar como um problema a ignorância humana sobre essa outra igualdade, que é cosmológica, pois, como já dissemos, “a violência é filha da ignorância”.

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