Envergonhar

Onde há fluidez, composição e contemplação do ritmo que irresistivelmente nos atrai, é ali que podemos sentir a vergonha. Mas não é a vergonha que vem acompanhada do lastimável sentimento de culpa, que faz alguém se desculpar mil vezes porque leva a sério a existência de um “sujeito como causa de uma ação”, que não agiu por dever, que poderia ter agido de outro modo. Muito diferente da vergonha que não muda nada, falamos aqui de uma vergonha que sentimos porque entregamos o nosso tempo, a nossa potência artística, a nossa potência intelectual, às exigências vampirescas do mercado – afinal de contas, tempo, energia, intelecto, criação, isso tudo deveria estar a serviço do crescimento da vida, e não do crescimento do capital... O sentimento da vergonha amoral pode despertar forças que nos impedem de acreditar que somos uma simples “vítima do sistema”, que não conseguiríamos continuar existindo sem a tutela da organização que reconhece o nosso trabalho bem feito. Como jamais alguém “pediu para nascer” em um determinado contexto socioeconômico, e o fato da resignação com os atuais valores não ser exclusividade de uma classe social (os ricos querem ser mais ricos, e os que não são também querem ser como os ricos), a incômoda experiência da vergonha pode dar início ao sepultamento do consumo de ilusões que servem para entorpecer todas as classes sociais. Se a vaidade pessoal é democraticamente incentivada para todos (em especial, pelas redes sociais na internet), como alguém pode sentir essa vergonha amoral se ainda está capturado pela vaidade? Por isso é necessário causar a vergonha por meio de muita técnica, mas também por meio do ritmo e da emoção... A vida revolucionária é feita dessas três coisas: técnica, ritmo e emoção, nada mais do que isso. A composição desses três elementos desfaz o “projeto revolucionário” que ainda alimenta os discursos dos que acusam os “opressores”, como se estes fossem a causa das injustiças da sociedade. Mas todos aqueles que colocam o coração naquilo que fazem, sem desprezar a técnica e o ritmo, possuem uma oportunidade de ouro: mudar definitivamente a vida de alguém. Sendo assim, envergonhar é um ato de generosidade e não de ressentimento – a esquerda superior deve produzir, sem cessar, essa sagrada e libertadora vergonha... Fazer os jornalistas se envergonharem do que dizem e escrevem; fazer os políticos se envergonharem dos seus conluios; fazer os empresários e banqueiros se envergonharem do seu vício pelo lucro; fazer os pastores se envergonharem das mentiras que pregam; fazer os trabalhadores em geral se envergonharem da sua cumplicidade. É indispensável fazer todos eles se envergonharem por jogarem no lixo a existência que ganharam.

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