Estupidez

É possível percebermos, com clareza, que é mais eficaz manipular os indivíduos que não têm tempo livre para se dedicar aos seus próprios pensamentos do que os que fazem um uso produtivo do tempo, já que é uma característica da nossa época o bombardeio de informações, sobretudo pela internet, como ferramenta indispensável para o controle do tempo das massas, embotando a sensibilidade estética e reprimindo a experiência do pensamento profundo, com concentração. A sociedade de excesso torna as nossas mentes imundas ao oferecer a sensação de que devemos nos manter informados dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Embora a internet seja um excelente meio para buscarmos conhecimento (grande parte da produção intelectual da humanidade se encontra nela), ela é utilizada, de modo crescente, como meio para troca de mensagens e, particularmente nas redes sociais, para representarmos uma imagem que acreditamos ser aquilo que os outros dizem que somos. A transformação da world wide web de um meio para buscarmos conhecimento para um meio de proliferação das conversas e do narcisismo não deve ser ignorada, visto que isso tem efeitos no nosso cotidiano e no modo como a sociedade é organizada. Contudo, o uso entorpecedor das inovações tecnológicas não é, evidentemente, um acontecimento recente, pois a televisão, antes mesmo da internet, já cumpria a função da disseminação da estupidez... Mas temos a impressão que a humanidade encontrou por intermédio da internet a maior oportunidade da sua história para se distrair de si mesma. Se, por um lado, o tempo dedicado à leitura de textos impressos não cessa de diminuir, por outro lado, o tempo dedicado à leitura de textos na tela de um computador ou de um smartphone apenas aumenta. Mas, de fato, podemos chamar isso de “leitura”? Nicholas Carr, em um importante estudo sobre os efeitos da internet no nosso cérebro [1], enfatiza que a leitura apressada na web é algo completamente diferente da experiência solitária que a leitura de um texto impresso pode nos proporcionar, uma vez que a “leitura” de um texto numa tela não deixa de estimular a dispersão da nossa atenção (incluindo e-books com hiperlinks), ao contrário do texto impresso que estimula o foco da atenção, permitindo, segundo Carr, “a capacidade de saber, em profundidade, um assunto por nós mesmos, e construir, dentro das nossas próprias mentes, o conjunto rico e idiossincrático de conexões que dão origem a uma inteligência singular”. Devido à leitura apressada, os indivíduos se tornam mais ansiosos, não sentem o enriquecimento da mente com a experiência do tempo, não conseguem desenvolver a potência crítica e criadora do pensamento – vivemos numa época em que, finalmente, a estupidez é estimulada em uma velocidade jamais vista... Mas será que a disseminação da estupidez humana seria um simples efeito do desenvolvimento tecnológico? Será que a facilidade de acesso às conversas online, e à avalanche de informações que nos chegam, não teriam nenhuma relação com interesses políticos e econômicos? Ora, a sociedade de excesso, ao roubar o nosso tempo próprio, tenta impedir a manifestação de pensamentos subversivos que colocam em questão interesses inconfessáveis – são interesses intrínsecos aos mais elevados graus da estupidez humana, porque somente os mais estúpidos entre os estúpidos utilizam o seu tempo para lucrar cada vez mais e, por causa disso, necessitam desesperadamente vigiar, controlar e enganar as massas. Entretanto, como não conseguiriam fazer isso sozinhos, precisam de um “mundo de estúpidos” que trabalham (tendo consciência ou não) a favor dos seus interesses miseráveis. Seguramente, a formação desse “mundo de estúpidos” não ocorre somente por ameaças ou censuras, mas principalmente de modo penetrante, clandestino, sedutor: se as massas não sabem o que fazer com o seu tempo livre, é mais fácil controlá-las pelo excesso de estímulos que servem para preencher esse vazio. Mesmo que elas se incomodem com a sensação de desperdiçarem o seu tempo com futilidades, ainda assim entendem que isso é melhor para elas, visto que não querem estar consigo mesmas, com seus pensamentos questionadores – elas têm medo de ideias ameaçadoras que podem vir à tona e desfazer o seu “mundo encantado, cheio de fantasia”... E se, inesperadamente, elas são atingidas por palavras ou imagens que provocam sensações vertiginosas, que tiram tudo do lugar, preferem fugir “como o diabo da cruz”... É fato incontestável que as informações que servem para alimentarmos o nosso pensamento crítico e, por conseguinte, para resistirmos à manipulação clandestina dos afetos, se encontram de modo abundante na internet. Mas quem é que tem paciência para fazer pesquisas? Quem é que tem tempo para buscar o conhecimento? E, além disso, quem é que tem a disposição necessária para poder fruir uma obra de arte? Certamente é mais cômodo preenchermos o nosso tempo livre com informações recebidas enquanto estamos sentados no sofá da sala, diante da televisão, como faz, por exemplo, a maioria dos brasileiros. Por efeito, se apenas sete famílias que dominam os meios de comunicação no Brasil decidem o que milhões de pessoas devem e como ser informadas, o acesso às informações que são discordantes aos interesses dessas famílias é reservado a uma parcela muito menor da população, pois para acessá-las é preciso ter tempo livre e paciência. Por isso é possível concluir que o acesso à riqueza da produção intelectual humana que está disponível na internet (e também nas bibliotecas, sebos e livrarias, pois não podemos desprezar a força que o livro impresso possui), é privilégio de pouquíssimas pessoas – são estas que, devido ao uso prolífico que fazem do seu tempo, conseguem expor problemas urgentes da nossa época, nos alertando sobre o perigoso caminho que a nossa civilização está se dirigindo e, ao mesmo tempo, nos indicando saídas entre as múltiplas pedras da estupidez. São problemas e saídas que as percepções do “reino da estupidez” não podem dispor, uma vez que ele mesmo, o “reino da estupidez”, é produto de uma detestável relação com o tempo.

1. “A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros”. Uma entrevista com Nicholas Carr está disponível em https://goo.gl/k1e1T5
Há um ótimo comentário sobre esse estudo de Nicholas Carr em http://goo.gl/GWIV8g

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